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Agradeça sempre

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Gutemberg B. de Macedo

Uma história de 40 anos de atuação no mercado, que se solidificou em uma empresa nacional, com filosofia e estratégias globalizadas.

“Quem recebe um favor nunca deve esquecer; quem faz nunca deve lembrar”.

Pierre Charron, teólogo francês (1541-1603)

A Carta de Agradecimento ou “Thank You Letter” é outra peça valiosa que você deverá redigir durante o período de transição de carreira. Ela diz muito a respeito do caráter e da boa educação do profissional.

A gratidão é um dos sentimentos mais nobres do ser humano. Entretanto, é ao mesmo tempo um dos mais difíceis de serem expressos por homens e mulheres ao longo do curso de sua existência e da carreira. Com grande frequência ouvimos histórias sobre profissionais que foram favorecidos em determinados instantes de sua vida por vizinhos, membros da própria família, colegas de trabalho – subordinados, pares e superiores – e até estranhos. Entretanto, sem nenhum motivo aparente, assim que tiveram as suas necessidades satisfeitas – uma carta de recomendação redigida por um amigo ou ex-chefe, uma apresentação pessoal formal a uma empresa por um “headhunter” ou conselheiro de transição de carreira, uma ajuda financeira em momento crítico por membro da própria família, um apoio moral, psicoemocional ou espiritual em circunstância de grande vulnerabilidade – viram-lhes as costas. Ignoram totalmente aquelas pessoas que o ajudaram em momento extremamente difícil.

Diante da indiferença das pessoas que auxiliamos em momentos como os que acabei de descrever, geralmente pensamos em voz baixa algo parecido com isso: “Como pude me enganar com essa pessoa?”, “como não vi essas coisas?”, “como ela foi capaz de usar de tamanha desfaçatez e impudência por tanto tempo?”.

Durante a redação deste capítulo, conversei com Denize Lara Kallás, diretora da de minha empresa, a fim de procurarmos exemplos extraídos de nossa própria experiência consultiva e que ilustrassem o que eu queria dizer. Infelizmente ficamos surpresos ao lembrar de inúmeros casos de profissionais que demonstraram ingratidão.

Foi o caso de um profissional que veio até mim oriundo de uma empresa do segmento de consumo popular. Ele tinha sido demitido após mais de 15 anos de trabalho naquela organização. A empresa lhe deu três nomes de firmas de outplacement de primeira linha que deveriam ser visitadas e avaliadas por ele. A sua escolha recaiu sobre a nossa empresa. Ficamos gratos pela sua decisão. Durante seis meses, período de duração do contrato, ele compareceu diária e religiosamente ao escritório e utilizou toda a infraestrutura disponível, como garagem para seu carro, sala privada, computador, acesso à internet, secretárias a sua disposição para digitação e envio de correspondência, jornais diários e revistas de negócios para leitura, telefones, anuários de empresas do país inteiro para consulta, confecção de cartões de visita e palestras semanais sobre assuntos variados, entre outras facilidades.

Concluídas todas as etapas de seu processo de outplacement – elaboração de currículo em português e inglês, referência pessoais, pacote de remuneração, aconselhamento diário e consultores experientes a sua disposição em qualquer momento do dia e da semana – ele começou a ser chamado para entrevistas. Passou por 33 processos seletivos. Eu mesmo o recomendei para vários de meus clientes. Em todas as entrevistas ele foi preterido por motivos variados.

Semanas antes do término do contrato de outplacement com a sua empresa, ele veio falar comigo sobre o assunto. Estava muito ansioso e apreensivo com o seu futuro profissional.  Naquele instante, eu disse o seguinte: “Você está perdendo o seu tempo discutindo esse assunto comigo. Você sabe que jamais deixarei um profissional sair da minha empresa simplesmente porque a empresa contratante não renovou o contrato de outplacement. Volte para a sua sala e continue o seu trabalho. Isso é o que de melhor você pode fazer por você”. Essa minha atitude, obviamente, acarreta no consumo de muitos recursos materiais, humanos e financeiros. Mas não era essa a questão naquele instante. Era o momento de ajuda-lo e assim eu fiz.

A sua permanência em nossas instalações se prolongou por mais de um ano, algo verdadeiramente incomum em nossos trabalhos de outplacement. Durante esse período, ele perguntou à uma executiva da minha equipe se ela poderia aconselhar sua única filha. A jovem, segundo ele, estava com sérios problemas pessoais, inclusive de natureza psicológica.  De bom grado, ela se prontificou a conversar e ajudá-la a encontrar um caminho em sua vida. Comumente, nossos consultores se dispõem a conversar com cônjuges e filhos sem custos adicionais para a empresa contratante e para o executivo.

De repente, esse executivo desapareceu de nossos escritórios e não deu mais notícias. Tentamos contato inúmeras vezes por telefone, porém sem nenhum sucesso. Duas semanas depois, um de seus colegas em processo de outplacement nos comunicou que ele tinha conquistado seu novo emprego como diretor financeiro de uma empresa europeia. Ficamos extremamente felizes com a notícia, mas ao mesmo tempo estranhamos seu comportamento e postura profissional. Se durante mais de um ano recebeu todo o tipo de apoio, porque não fomos comunicados do seu sucesso na busca de emprego?

Dias depois recebemos cópia de um e-mail enviado por ele para inúmeras pessoas de seu relacionamento anunciando a sua recolocação. De posse da cópia desse e-mail e de seu novo telefone, liguei para ele. Nessa ocasião, ele me disse que não teve tempo para nos comunicar sobre o assunto. Tudo tinha acontecido muito rápido. Ao longo de nossa conversa, perguntei quando ele gostaria de celebrar sua nova contratação. Minha empresa tem como prática celebrar toda transição de carreira bem-sucedida. Promovemos um café da manhã farto ou almoço, tocamos e sinos e buzinas, discursamos e presenteamos esses profissionais com livros e canetas especiais. Além disso, gravamos em CD esse acontecimento único na vida desses profissionais e entregamos como lembrança de um dos períodos mais ricos de suas vidas. Nesses momentos, o nosso sentimento é o do nascimento de um novo filho. É a nossa maior alegria e felicidade.

Bem, o agora executivo empregado prometeu que tão logo terminasse o seu período de adaptação na nova empresa, agendaria a celebração. Essa é uma atitude incomum. Todos os profissionais a celebram imediatamente, pois é um momento marcante e que representa o fim de um ciclo difícil. Ainda hoje continuamos esperando sua visita. E, o mais incrível, ele nunca nos enviou uma única palavra de agradecimento pelo trabalho que desenvolvemos além do que estava previsto em contrato. Na verdade, todos no escritório ficaram decepcionados com o seu comportamento displicente e nada profissional.

A esse respeito, vale lembrar as sábias observações do mestre Baltasar Gracian, filósofo e padre jesuíta espanhol (1601-1658): “Seja grandioso o comportamento, objetivando a superioridade. Quem é grande por posição não deve ser pequeno ao proceder;” “Saber tirar proveito dos outros é uma arte útil. O sábio dá valor a todos, porque reconhece o bom em cada um… O tolo despreza a todos, pois ignorando o que é bom, escolhe o que é pior”; “Quem matou a sede, vira as costas à fonte, e laranja espremida cai de ouro ao lodo”; “Mas a pessoa experiente bem sabe que é sinuoso o caminho dos méritos em si, sem o apoio do favorecimento. A benevolência facilita e completa tudo. Nem sempre verifica se existem as boas qualidades e sim as pressupõe: coragem, integridade, sabedoria e até a discrição; nunca vê as fealdades porque não gostaria de vê-las”. (Oráculo Manual Y Arte de Prudência, 088, 195, 005 e112).  

Esse é um comportamento que tem sido observado, não apenas em uma sociedade contaminada pelo materialismo, dominada pelo individualismo exacerbado e movida pelo consumismo desenfreado, onde cada um está preocupado apenas com os seus próprios interesses e causas pessoais. Ele tem sido repetido por uma parcela significativa de homens e mulheres ao longo do curso de toda a história humana. Com propriedade, Aristóteles, filosofo grego (384-322 a.C.) disse: “Gratidão é o sentimento que mais depressa envelhece”.

Há mais de dois mil anos, Cristo se dirigia para Jerusalém e, entrando numa certa aldeia, foi abordado por dez leprosos que de longe gritavam: “Mestre tem misericórdia de nós. Cura-nos da lepra que nos deixa isolados do mundo e que nos reduz às cidadãos de quinta categoria”. Cristo, ao observar o sofrimento e o desalento daqueles leprosos, disse-lhes: “Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes no templo”. E aconteceu que, indo eles, ficaram completamente limpos – curados. E um deles, samaritano de origem, vendo que estava curado e são, voltou para agradecê-lo. Relata-nos, ainda, a história sagrada que o leproso caiu aos pés do Cristo, com o rosto em terra e o agradeceu. Nesse instante, Cristo, ao ver o seu ato de profunda gratidão, indagou: “Não foram dez os leprosos curados? Onde estão os outros nove”.

Caro leitor, infelizmente, são muitos os profissionais que se comportam como os nove leprosos dessa passagem da Bíblia. Eles são convidados a participar de processos seletivos e recebidos nas organizações de maneira educada e cortes. Os entrevistadores lhes fornecem valiosas informações sobre a organização, um cafezinho e água gelada para o seu conforto. Entretanto, tão logo termina a entrevista, eles se esquecem de enviar uma carta de agradecimento ao entrevistador ou entrevistadores. É um erro crasso.

Esse tipo de comportamento tem duas explicações apenas: trata-se pura e simplesmente de ingratidão ou da mais completa falta de educação. Quero crer que essas sejam as verdadeiras e predominante causas. Por outro lado, reconheço que muitos profissionais não gostam de escrever uma carta de agradecimento simplesmente porque não sabem pensar e muito menos escrever adequadamente. 

Eu e a minha equipe temos presenciado milhares de milagres ao longo de nossa história como profissionais sendo chamados para novas entrevistas nas mesmas empresas onde estiveram antes simplesmente porque se destacaram pela dignidade de seu gesto: escreveram uma carta de gratidão. 

A carta de agradecimento é valiosa por vários motivos:

  • É um gesto diferenciado de gratidão e de respeito ao entrevistador pelo seu tempo e interesse em ouvir a sua história.
  • É uma maneira de você se posicionar perante o entrevistador em, no máximo, 72 horas e reforçar sua imagem de profissional educado e distinto.
  • É também uma maneira de você renovar seu interesse pela posição que aspira e demonstrar porque você é o melhor candidato no mercado para a respectiva posição.
  • Mesmo que a entrevista tenha sido tumultuada (como interrupções do entrevistador para atender telefonemas particulares ou mesmo negociar o seu apartamento, como aconteceu recentemente com um profissional assessorado por mim) ou conduzida por um entrevistador completamente inexperiente, seja generoso e compreensivo. Prepare e envie uma carta agradecimento.

A carta de agradecimento deve ser objetiva, clara e sucinta e ter, no máximo, 15 linhas Lembre-se que ao redigi-la, o seu único objetivo ao escrevê-la é manifestar palavras sinceras e honestas de gratidão. Há uma expressão oriunda do texto sagrado dos cristãos que diz: “Em tudo, daí graças, porque esta é a vontade de Deus”. (I Carta de São Paulo Apóstolo aos Tessalonicenses 5.18). Essa carta deve ser constituída de dois itens básicos:

1 – Lembrar ao seu leitor sobre a ocasião. Eis alguns exemplos para a abertura da carta:

  • “Agradeço pelo tempo que me dedicou por ocasião de nossa entrevista”.
  • “O seu tempo e conselhos foram muito apropriados. Quero agradecer mais uma vez por ter me recebido ontem pela manhã”.
  • “Muito obrigado por ter me apresentado ao presidente de sua prestigiosa organização”.

2 – Expressar seus sentimentos ou fornecer informações que julgue apropriadas e valiosas também.

  • Seja especifico, pois o entrevistador pode ter lhe esquecido.
  • Forneça informações que fortaleçam e fixem a sua excepcional imagem na mente do recrutador.
  • Torne sua carta significativa para quem a recebe. Essa é uma experiência genuinamente entre almas.

Certa vez fui entrevistado por uma jovem jornalista de uma importante revista de negócios de circulação nacional. Durante quase três horas, falamos sobre o tema liderança. Na manhã seguinte ao nosso encontro, enviei-lhe a seguinte carta de agradecimento:

Prezada Jornalista,

Tive grande prazer em conhecê-la e conversar com você ontem à tarde em meus escritórios sobre liderança e também sobre outros assuntos da vida corporativa.

Espero ter contribuído com informações importantes para a redação de sua matéria e também que você empreenda um super-trabalho com as informações fornecidas.

Lembre-se do que eu lhe disse: “não seja uma jornalista comum. Procure ser a melhor em tudo o que você escreve. Tenho certeza que você será. Afinal, qualificações intelectuais não lhe faltam.”

Somente lamento que você não tenha experimentado de nossos deliciosos bombons e trufas. Ficará para uma próxima oportunidade”.

Um abraço agradecido,

Gutemberg B. de Macedo

Duas horas após ter enviado minha mensagem de agradecimento via celular, recebi dela a seguinte resposta: 

Olá, Gutemberg,

Agradeço sua mensagem e sua recepção. Gostei bastante de nossa conversa e estou empenhada em fazer um excelente trabalho, seguindo seus conselhos.

Acredito que não faltarão oportunidades para eu provar os bolos e as trufas.

Um abraço

Caro leitor, essa é a maneira correta e mais apropriada de pessoas civilizadas e que se respeitam se comunicarem após uma entrevista de emprego, uma apresentação pessoal formal à uma empresa, um encontro não planejado, o recebimento de um presente ou de um favor, o apoio moral por ocasião da transição de carreira etc. Portanto, repito: Nunca se esqueça de agradecer por menor que seja o ato de seu semelhante. A gratidão é o mais nobre dos sentimentos. Somente pessoas vazias interiormente, egoístas e desprovidas de alma agem com ingratidão.

Marcial, poeta latino, em c. 40-102, Epigramas, V, 42, escreveu: “Terás sempre apenas aquilo que terás doado”. Quero adicionar às palavras de Marcial a observação feita por J. Giraudoux, escritor francês, 1882-1944, em A Guerra de Tróia Não Acontecerá: “As nações, como os homens, morrem de imperceptíveis descortesias”.    

É importante que o nome do entrevistador e da empresa sejam escritos corretamente. Qualquer descuido pode lhe causar enorme prejuízo, no caso a perda de um bom emprego. Portanto, nunca se esqueça de tomar os seguintes cuidados:

  • Cheque se o e-mail e o endereço do entrevistador estão corretos, entre outros cuidados. Confira todos os dados
  • Evite a tentação de colar ou plagiar o conteúdo de outras cartas, ato muito comum nos dias atuais. Ela deve ser a expressão mais pura de seus pensamentos, avaliações, sentimentos e conclusões. Ela deve ainda espelhar sua personalidade, seu nível cultural e sua etiqueta social-empresarial. Não esconda os seus pensamentos com as suas palavras.
  • Desenvolva uma comunicação construtiva, positiva e estimulante com o seu entrevistador. Se puder, anexe a sua carta, uma revista, artigo, livro, ou sites que possam ser do interesse particular de seu interlocutor.

Certa vez assessorei um dos mais promissores gestores de recursos humanos do país. Durante seu período de transição, sempre que ele participava de processos seletivos, não apenas mandava uma carta de agradecimento bem-redigida como também um bom livro de um autor renomado, com uma dedicatória para o entrevistador. As consequências positivas de seu comportamento foram espetaculares, pois em plena crise brasileira de emprego, entre os anos de 2008-2009, ele recebeu mais de seis ofertas de trabalho com pacote de remuneração e benefícios muito superiores ao que recebia de sua empresa anterior. 

Se uma pessoa não é capaz de expressar seus pensamentos de maneira racional, lógica, criativa e objetiva, como poderá tratar e resolver problemas complexos e que exigem profundidade de pensamento. É impossível retirar água de uma fonte seca.

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