Por Gutemberg B. de Macedo
Comecei a redação deste post na última semana, após a leitura da extraordinária entrevista da CEO da Roche Farma Brasil, Larice Scalise — primeira mulher a ocupar tal posição no país. Larice, como inúmeras outras executivas, é um exemplo incontestável de que é possível ser bem-sucedida na vida corporativa mesmo sendo mãe de três filhos. Suas palavras: “O meu trabalho é a minha luta diária e eu não abro mão disso, assim como eu não abro mão de ser uma boa filha e uma BOA mãe.”
Ser mãe e ser uma executiva de carreira não são “mandatos culturais” antagônicos e irreconciliáveis — podem, sim, ser complementares. Ambos os “mandatos” podem andar de mãos dadas. Ser mãe, segundo Barbosa Filho, “é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade.”
Ser executiva é assumir a vocação de transformar organizações, fazer nascer novos líderes (maternidade), devotar uma parcela de seu tempo para inspirar pessoas e influenciar a sociedade. Ser uma executiva é construir pontes para que seus colaboradores atravessem o mar vermelho com relativa segurança. Apenas profissionais humanos e sensíveis são capazes de construir essas pontes. E ninguém é mais qualificada para isso do que a mulher.
“Ser mãe é assumir a liderança de um coração que bate fora do próprio corpo. Ser executiva é assumir a responsabilidade de decisões que transformam realidades. Mas quem disse que uma anula a outra?”
O universo corporativo, por muitos anos, nos ensinou que sucesso e maternidade não cabiam na mesma agenda. Que a mulher que desejava crescer na carreira deveria adiar, repensar ou até mesmo abrir mão do desejo de ser mãe. Mas esse paradigma — que por tanto tempo travou sonhos e impôs silêncios — está ruindo. E, no lugar dele, nasce uma nova narrativa: a da mulher que lidera empresas e embala filhos, que toma decisões estratégicas e corta frutas no café da manhã, que assina contratos e bilhetes escolares.
A maternidade, ao contrário do que muitos acreditam, não fragiliza a mulher executiva — ela a fortalece. Quem já negociou com uma criança de dois anos entende de gestão de crise. Quem equilibra prazos e cólicas desenvolve uma inteligência emocional rara. Quem aprende a ouvir com o coração é capaz de liderar com humanidade.
O problema nunca foi ser mãe. O problema foi o sistema não saber lidar com a potência dessa mulher.
Por isso, ainda hoje, tantas enfrentam olhares enviesados ao voltar da licença-maternidade. Cargos rebaixados, oportunidades negadas, dúvidas infundadas sobre sua “disponibilidade”. Como se a maternidade roubasse sua competência — quando, na verdade, a amplia.
Organizações que acolhem a maternidade constroem ambientes mais empáticos, inovadores e sustentáveis. Não se trata de caridade corporativa, mas de inteligência estratégica.
A executiva que é mãe aprende, todos os dias, a priorizar o que importa. Desenvolve resiliência, adaptabilidade e senso de propósito. Ela lidera com a alma e entrega com excelência. E, acima de tudo, não aceita mais ser dividida entre quem é em casa e quem é no trabalho — ela é inteira em ambos.
Enquanto o mundo insiste em dividir, a vida ensina a integrar.
A maternidade é uma escola silenciosa, onde se aprende a liderar com o olhar, a decidir com empatia, a ouvir sem julgamento. E é esse tipo de liderança que o mundo atual tanto precisa — menos autoritária, mais afetiva. Menos sobre controle, mais sobre conexão.
E se, ao invés de perguntar “como ela vai conciliar?”, a pergunta fosse: “O que essa mulher pode nos ensinar sobre liderança, coragem e entrega?”
E se, ao invés de temer a ausência momentânea, celebrássemos o retorno mais maduro, mais forte, mais humano?
Talvez o que falte nas empresas não sejam menos mães. Talvez o que falte sejam mais líderes com alma de mãe.
Que este texto seja um abraço para todas as mães que lideram com um olho na planilha e outro na babá eletrônica. Que seja um chamado às empresas que ainda medem competência por horas sentadas na cadeira. Que seja um lembrete de que, no fim do dia, o verdadeiro sucesso é chegar em casa — e ser recebida com um sorriso que não tem salário que pague.
E você, executiva-mãe, que carrega no peito um crachá e um coração? Nunca duvide: você não está atrasada. Está exatamente onde deveria estar. Liderando. Inspirando. Amando. Transformando.
Redigido e Postado por Gutemberg B de Macedo, Presidente da Gutemberg Consultores



