Alameda Santos, 1827 – Cerqueira César – CEP 01419-100 – SP

Conheça os vários tipos de entrevistas

Picture of Gutemberg B. de Macedo

Gutemberg B. de Macedo

Uma história de 40 anos de atuação no mercado, que se solidificou em uma empresa nacional, com filosofia e estratégias globalizadas.

“Todos os candidatos devem pensar em si mesmos como consultores quando se dirigem para uma entrevista. Todos devem compreender as necessidades dos empregadores em potencial e provar que podem satisfazê-las. Em seguida, podem definir seus próprios prazos e necessidades, quando os empregadores em potencial decidirem que é o profissional a ser contratado para a posição”.

Nick A. Corcodilos

Headhunter norte-americano do Silicon Valley, Califórnia

“Ask the Headhunter,” 1994

A maioria dos profissionais que prospecta nova posição do mercado de trabalho acredita que o objetivo de uma entrevista é conquistar um novo emprego.  Esses profissionais não poderiam estar mais equivocados, segundo Nick A. Corcodilos. Se eles se conduzirem durante uma entrevista com essa atitude, começarão em completa desvantagem. Existe uma diferença enorme entre os profissionais que procuram por nova oportunidade de trabalho e aqueles outros que desejam satisfazer as necessidades específicas de um empregador em potencial. À luz dessa distinção, segundo o consultor acima referido, “É absolutamente fundamental que você compreenda este ponto: o propósito imediato da entrevista é beneficiar o empregador. A meta da empresa é confirmar se determinado candidato pode empreender o trabalho com excelência e essa meta está muito acima da meta do candidato de garantir que a empresa e o cargo sejam definitivamente adequados a ele.”

Em outro trecho do mesmo trabalho, Corcodilos aconselhou aos seus leitores: “Desenvolva uma atitude de quem está disposto a fazer um trabalho, e não conseguir meramente um emprego. Um trabalho não é algo que se adquire: é algo que se conquista pelo que se pode fazer. Empreender um trabalho constitui uma contribuição valiosa e motivadora para o negócio de um empregador. Essa atitude implica que você não está apenas procurando qualquer emprego, mas um emprego específico que possa dominar e no qual possa gerar valor. Um empregador recompensará generosamente essa atitude”.

Caro leitor, não há uma única maneira de fazer uma entrevista. Ela pode assumir diferentes estilos. Os entrevistadores são profissionais preparados para fazer entrevista de diferentes maneiras. E para cada uma delas você precisa estar preparado. Nesse sentido, a eficiência e o sucesso na condução de suas entrevistas dependerão em grande parte do seu grau de honestidade para com você mesmo. Se tiver se preparado cabalmente, relaxará durante as entrevistas e discutirá em todos os níveis corporativos sobre as questões mais importantes levantadas – com total autoconfiança, com domínio sobre os assuntos colocados sobre a mesa, com argumentos que fortalecem o seu posicionamento, com inteligência e com a atitude de um consultor experiente, maduro e sábio.

Com essas observações em mente, destacarei neste capítulo três tipos diferentes de entrevista: a tradicional, a comportamental ou situacional e a estressante (“stress interview”), além dos prós e os contra de cada uma delas e qual a melhor abordagem ou estratégia para superá-las com ânimo, competência, rigor mental e sabedoria.

A entrevista tradicional – Esse tipo de entrevista é o mais utilizado por selecionadores e segue um padrão facilmente identificado. Selecionadores se conduzem como se estivessem seguindo regras predeterminadas. Por meio de perguntas diretas e objetivas sobre suas habilidades e experiências, os selecionadores são capazes de obter uma compreensão razoável sobre o profissional – qualificações básicas que o capacitam a empreender o trabalho com competência, nível de comunicação oral, formação educacional, entre outros conhecimentos.

Esse tipo de entrevista segue um ritual bem familiar: O candidato é bem recebido pelo entrevistador, que procura colocá-lo em posição confortável e descontraída. Na maioria das vezes, o entrevistador inicia a entrevista falando sobre assuntos que aparecem na mídia – política econômica, gafes de uma pessoa famosa, a renúncia de um papa ou mesmo a demissão inesperada de um ilustre e cortejado executivo, entre outros assuntos.

Após esses minutos de descontração, o entrevistador começa a entrevista com uma série de perguntas. Por exemplo: Fale sobre si mesmo. Por que você está procurando uma nova colocação no mercado de trabalho? Como você tomou conhecimento sobre a nossa empresa e essa oportunidade de trabalho? Quais são os seus objetivos de carreira a curto, médio e longo prazos? Quais são os seus pontos fortes? Quais são as suas principais vulnerabilidades? Que tipo de profissional você se considera ser? 

Com estas e outras indagações, o entrevistador deseja obter uma visão global sobre o perfil do profissional – seu berço familiar, sua educação formal, sua carreira e histórico profissional, atividades extracurriculares que desenvolve, idiomas que fala, nível de experiência e grau de exposição internacional. Após intenso questionamento ao candidato, o entrevistador começa a falar sobre a posição a ser preenchida, sobre a empresa e o momento por ela vivido, os seus projetos de expansão ou muitas vezes os problemas que enfrenta e que exigem uma solução rápida. No fundo, o entrevistador está perguntando: “Você é o candidato ideal para ocupar essa posição”? 

A entrevista é concluída com o entrevistador perguntando ao candidato se ele tem dúvidas ou deseja saber mais sobre a empresa e os desafios a serem superados. Esse é um momento de extrema relevância, visto que o candidato a despeito da maneira como respondeu a todas as perguntas formuladas, deve sair do lugar comum e fazer perguntas inteligentes e profundas ao entrevistador. Se ele não tem perguntas para fazer, é porque não sabe pensar e não fez o exercício de casa. Ele está apenas querendo conquistar um novo emprego. Ele, ainda, não está preocupado o suficiente com o trabalho a ser feito, mas deseja apenas ter um emprego e um salário no final do mês.

Esse é o tipo de profissional que nenhuma empresa séria deseja contratar, uma vez que ele está sendo desonesto consigo mesmo e com o empregador em potencial. Está sendo desonesto porque sua intenção não é a mesma do empregador e não está concentrado no trabalho a ser feito. Essa atitude transformará a entrevista em uma batalha onde o que conta é a esperteza, e não o encontro de mentes, como observou Nick A. Corcodilos, em obra anteriormente citada.

Esse tipo de entrevista tem as suas vantagens e desvantagens:

Vantagens da entrevista tradicional – Segundo a consultora norte-americana L. Michelle Tullier, Ph.D. e renomada consultores em gestão de carreira, o candidato pode se preparar para ela com certa facilidade porque elas seguem um determinado padrão. Elas costumam ser “light”, não estressantes e subsidiam o entrevistador com informações valiosas sobre o profissional.

Desvantagens da entrevista tradicional – Há claras desvantagens desse tipo de entrevistas. Primeira: ela o coloca numa posição passiva – perguntas versus respostas. Consequentemente, o candidato não mergulha em profundidade em questões importantes sobre a posição e a empresa em geral. Segunda: é bem provável que o entrevistador não obtenha um conhecimento mais profundo e robusto sobre o candidato. Terceira: o profissional terá de ajustar a sua agenda a de seu entrevistador. Nessa circunstância, qual é a melhor estratégia a ser empregada pelo candidato quando confrontado com uma entrevista tradicional? Acredito que o candidato poderá empregar várias estratégias a fim de tornar sua entrevista bem-sucedida:

  • Assegurar-se de que está no controle da entrevista – você não se conduz como se fosse inferior ao entrevistador, mas sim iguais.
  • Demonstrar ao longo da entrevista que conhece a empresa, que é capaz de fazer o trabalho com excelência e de maneira lucrativa.
  • Transformar a entrevista em diálogo construtivo e abrangente e não meramente um exercício elementar de perguntas e repostas.

A entrevista situacional ou comportamental – Esse tipo de entrevista é comumente um verdadeiro terror e deixa a maioria dos candidatos em estado de pânico. Elas são frequentemente usadas em bancos de investimento, empresas de alta tecnologia e em instituições onde a cultura predominante valoriza apenas o mérito individual, a competitividade entre as pessoas, o arrojo individual e a busca frenética por resultados permanentes. Existem empresas que se tornaram mundialmente conhecidas pelo ardor e rigor na condução desse tipo de entrevista – Intel Corporation, Banco Garantia até a sua venda, Cervejaria Brahma (atualmente INBEV), Apple Corporation, Oracle Corporation, Google e Goldman Sacks, entre inúmeras outras.

Nesse tipo de entrevista, o candidato é solicitado pelo entrevistador a falar sobre o seu comportamento quando confrontado com diferentes situações no seu ambiente de trabalho – desmotivação generalizada da equipe, sangria financeira, perda sistemática de clientes, chefe truculento, desonestidade executiva etc. Na realidade, quando confrontado com essas circunstâncias, o entrevistador deseja saber sobre os resultados mais importantes que o profissional conquistou e o que verdadeiramente agregou ao crescimento dos negócios, que medidas corajosas tomou e que riscos assumiu.

Vantagens da entrevista situacional/comportamental – Ao avaliar esse tipo de entrevista, concluímos que ela apresenta uma série de vantagens para candidatos arrojados, autoconfiantes e com vocação para o risco e a execução de trabalhos desafiadores e inusitados. Profissionais inseguros, medrosos, tímidos e com mentes tipicamente burocráticas não sobrevivem quando confrontados com esse tipo de entrevista. Eis algumas de suas reais vantagens: se o candidato se preparou cabal e totalmente para enfrentá-la, a entrevista situacional poderá se tornar extremamente relevante para a conquista de novo emprego, pois permite que a pessoa tenha a oportunidade de falar sobre o que empreendeu em empresas anteriores e o que poderá fazer à luz de seu perfil arrojado e empreendedor. Além disso, esse tipo de entrevista é estimulante e interessante sobre qualquer ângulo que a investiguemos, principalmente do ponto de vista mental. Por fim, oferece ao candidato a oportunidade de conhecer em profundidade a realidade da empresa e confrontá-la com as suas necessidades e objetivos de carreira.

As desvantagens da entrevista situacional/comportamental – Como tudo na vida, esse tipo de entrevista tem as suas desvantagens. Primeira: se o candidato não se preparou como deveria para suportar essa pressão psicológica  sofrerá grande perda – a oportunidade de conquistar novo emprego. Segunda: o profissional necessitará ampliar substancialmente o tempo dedicado ao seu preparo a fim de conduzi-la de maneira eficaz. Terceira: ele terá de pesquisar tudo sobre a empresa e o entrevistador e estar preparado para responder a todos os casos hipotéticos colocados pelo entrevistador.

Aqui vale lembrar as palavras de Sófocles, trágico grego (496-406 a. C): “As desventuras que mais atingem os homens são aquelas escolhidas por eles”. (Édipo rei, 1230-1).

Ao participar de uma entrevista do tipo situacional/comportamental, a estratégia mais adequada para qualquer profissional deve considerar os seguintes pontos:

  • Não use o seu tempo apenas para falar sobre seus feitos passados. O seu empregador não deseja comprar o seu passado. Ele ambiciona comprar o seu presente e o seu futuro. Portanto, enfatize o que você pode fazer para a empresa em virtude de sua capacidade de solucionar problemas semelhantes;
  • Forneça dados ao entrevistador que fortaleçam sua posição como o candidato ideal – dê exemplos relevantes e que se aplicam à natureza da posição e do trabalho a ser empreendido;

A entrevista estressante – Esse tipo de entrevista é facilmente identificada, visto que desde o seu primeiro momento você sabe que o entrevistador está procurando pressioná-lo e colocando-o à prova. Ele deseja estressá-lo para saber até que ponto você suportará a pressão no seu dia-a-dia de trabalho. O entrevistador, ao conduzir a entrevista de natureza estressante, pode se valer de vários comportamentos e expedientes nada agradáveis para o candidato: raiva, desinteresse no que ele diz, se manter distraído o tempo todo, interromper bruscamente a entrevista a fim de fazer objeções ou comentários negativos a respeito das palavras ou argumentos do entrevistado. Ele pode ainda se manter em silêncio e sem esboçar qualquer reação ao obter as respostas as suas indagações.   

Lembro-me de um executivo, vice-presidente de importante empresa de telecomunicações, a quem assisti por ocasião de sua demissão, que quando ele recebia um profissional para uma entrevista, dizia: “Não quero o seu currículo. Papel aceita tudo, inclusive inverdades.” Mesmo assim, ao pegar o currículo em suas mãos, o rasgava e atirava os pedaços de papel no cesto de lixo”.

Ao perguntar-lhe se não considerava tal ato uma demonstração de falta de civilidade, ele me disse: “Essa é a tática que utilizo para determinar o grau de maturidade de um profissional e a sua capacidade de tolerância ao estresse.” Steve Jobs, co-fundador e ex-CEO da Apple Corporation declarou sobre esse assunto: “Muitas vezes, em uma entrevista, eu perturbo as pessoas de propósito: critico seu trabalho anterior. Faço meu dever de casa, vejo em que já trabalharam, e digo: ‘Nossa, isso acabou se tornando uma bomba, um produto idiota. Por que você trabalhou nele? Quero ver como as pessoas ficam quando estão sob pressão. Quero ver se simplesmente se curvam ou se têm firme convicção, crença e orgulho do que fizeram”.

Uma demonstração de sua convicção foi materializada em entrevista com uma executiva sênior de RH da Sun Corporation. Segundo seu relato, ela já havia aguentado mais de dez semanas de entrevistas com os executivos sênior da empresa antes de ser entrevistada por Steve Jobs. Quando finalmente chegou a vez de ser entrevistada por Jobs, ele imediatamente a colocou sob críticas severas: “Ele me disse que meu currículo não era adequado à posição. A Sun é um bom lugar, disse ele, mas a Sun não é a Apple. Disse que, se tivesse sabido antes, teria me eliminado de cara como candidata”.

Como os diferentes tipos de entrevista anteriormente discutidos, a “stress interview” tem as suas vantagens e desvantagens:

Desvantagens mais significativas – Se o profissional não está adequadamente preparado para enfrentá-la poderá se sentir ameaçado ao longo da entrevista, inseguro e coberto de dúvidas sobre suas competências. Nessa circunstância, o candidato comumente diz coisas como “eu me senti totalmente impotente diante do entrevistador”, ou “eu parei de pensar”, ou ainda “eu verdadeiramente não sabia o que falar – as palavras não saiam de minha boca. Há até casos de pessoas que saíram da sala e começaram a chorar, se sentindo um verdadeiro lixo humano.

Vantagens mais importantes – Quando o candidato supera todos os obstáculos colocados pelo entrevistador em seu caminho, ele tem a gostosa sensação de campeão. Fatalmente, ele despertará a atenção de seu entrevistador e a sua luz haverá de brilhar. Aqui vale lembrar as palavras de Virgílio, poeta latino, 70-19 a.C., “O sucesso o encoraja: ele pode porque pensa que pode”.

Caro leitor, existem várias estratégias que poderão ser usadas por você quando confrontado com esse tipo de entrevista:

  • Nunca entre em pânico se o entrevistador for agressivo, apático, indiferente ou grosseiro. Comporte-se como um diplomata em corte estrangeira e antagônica a seu país. Parafraseando as palavras do diplomata e secretário de gabinete de Luís XIV, François de Calliers (1645-1712), “o candidato a um emprego não somente deve ser livre de humores e fantasias caprichosos como tem de saber como ser tolerante, como adequar-se aos volúveis humores alheios. Deve, de fato, ser como Proteu da fábula, sempre pronto a assumir uma figura e postura diferente, de acordo com a ocasião e a necessidade.” (On the manner of negotiating with Princes,” 2002).
  • Se o entrevistador se mantiver em silêncio ao ouvir suas respostas, não se preocupe. Mantenha a sua postura de dignidade, sobriedade e autoconfiança. Olhe nos seus olhos e fixe-o até que ele reaja às suas respostas. Ele falará em breve. Aguarde.
  • Defenda as suas posições de maneira madura, consciente, tranquila, inteligente e sábia. Há um Provérbio de Salomão, intelectual e estadista judeu, que diz: “Como beijos nos lábios, é a resposta com palavras retas.” E um outro que diz: “[…] Quando um sábio é instruído, recebe o conhecimento”. (Provérbios de Salomão 24.26 e 21.11).

Tivesse a executiva da Sun Corporation seguido essa estratégia, ela não teria saído arrasada da entrevista com Steve Jobs. Muito pelo contrário, teria saído contratada pelo “deus da tecnologia moderna.” Caro leitor, não importa o tipo de entrevista da qual você participe, o melhor mesmo é que você esteja sempre bem preparado para encará-las. Portanto, escolha bem o tipo de empresa na qual deseja trabalhar; procure um trabalho para empreender que seja compatível com as suas características pessoais e nível de competência. Nunca deseje se vender por algo que você não é, afaste totalmente de sua mente a ideia de conquistar apenas um emprego (ninguém, ninguém mesmo vai lhe oferecer um), nunca vá para uma entrevista se você de antemão sabe que não poderá deixar o entrevistador encantado por você e certifique-se de que o entrevistador sabe tudo sobre você e a sua capacidade de empreender “milagres” no trabalho.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

× Como posso ajudar?