No final da década de 1990, escrevi e publiquei um longo artigo com o título: “O Profissional Acima de 45 Anos Não é um Marginal. Por que Discriminá-lo?” Naquela época, as empresas passavam por grandes transformações — downsizing, reestruturações, reengenharia, entre outras. O emprego “do berço à sepultura” desapareceu até mesmo no Japão. A confiança dos empregados em suas organizações foi para o espaço, e o carreirismo ascendeu rapidamente.
A ênfase daquele momento era a reoxigenação das empresas por meio das demissões em larga escala e a valorização dos jovens com MBA em instituições acadêmicas como Harvard, Stanford, Chicago University, entre outras. As empresas exageraram tanto nesse afã que o brilhante professor Henry Mintzberg escreveu:
“A pior coisa que poderia acontecer para uma organização era contratar um MBA com um laptop nas mãos.”
Profissionais acima de 45 anos eram demitidos sob a alegação de serem obsoletos, improdutivos e incapazes de “voar”. Concluí aquele artigo com as seguintes palavras:
“Nós os conduzimos até a borda e pedimos que eles voassem. Eles não arredaram o pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram. Então, nós os empurramos para o abismo.”
Lembro-me da declaração do Dr. Luiz Luciano Costa, advogado de grandes empresas multinacionais, que sentiu na própria pele essa discriminação. Em artigo publicado na revista Exame (25/02/1998), ele afirmou:
“Os recrutadores não fazem a menor questão de esconder seu desapontamento quando eu lhes dou essa informação: tenho 52 anos.”
Caro leitor, essa realidade não mudou muito desde então. Atualmente, muitos profissionais acima de 45 anos — homens e mulheres — continuam sendo tratados como leprosos.
Hoje, volto a escrever sobre o mesmo problema, pois acredito que o envelhecimento não significa declínio físico ou mental, muito menos exílio do mundo dos vivos e dos negócios. Esse período oferece uma visão panorâmica da qual provêm a verdadeira maturidade e a sabedoria.
No último dia 4 de abril, cheguei aos meus 80 anos com uma mente fértil, avidez pelo conhecimento, uma memória extraordinária (chupei muita cabeça de peixe), a mesma disposição para trabalhar e servir ao próximo, e cercado de amigos(as) e familiares que me respeitam e me chamam carinhosamente de “Mestre”.
No Antigo Testamento, a figura de uma pessoa com lepra era a imagem de alguém amaldiçoado por Deus e pelos homens. O leproso provocava medo, tanto por ser considerado impuro pela religião judaica quanto pela suposta natureza contagiosa da doença. Quem tocasse em um leproso também era considerado impuro e em situação de pecado. A depender da direção do vento, o leproso precisava gritar a uma distância de 45 metros: “Leproso! Leproso! Leproso!”
Caro leitor, é preciso varrer de nossas organizações — e da sociedade em geral — o preconceito contra pessoas acima de 45 anos. Vamos estender o tapete vermelho para que elas passem orgulhosamente sobre ele. Essas pessoas merecem os nossos aplausos. Vamos fazê-las voar novamente.
Vivemos em uma era de transformações rápidas
Vivemos em tempos nos quais inovação, tecnologia e juventude parecem dominar os discursos corporativos. Contudo, nesse cenário, um grupo de profissionais tem sido frequentemente colocado à margem: os trabalhadores com mais de 45 anos.
O termo é forte, mas necessário. Não raro, esses profissionais são tratados como se fossem “marginais do mercado”, ignorados em processos seletivos, desvalorizados em programas de desenvolvimento e vítimas de preconceitos etários velados.
Experiência não é sinônimo de obsolescência
A primeira falácia que precisa ser combatida é a de que experiência equivale a atraso. Pelo contrário. Profissionais com mais de 45 anos carregam competências que dificilmente se aprendem em cursos rápidos: resiliência, inteligência emocional, jogo de cintura diante de crises e conhecimento prático do funcionamento das organizações.
Como afirma Peter Cappelli, professor da Wharton School da Universidade da Pensilvânia:
“À medida que envelhecem, os trabalhadores tendem a desenvolver comportamentos mais produtivos, inclusive menor rotatividade e maior comprometimento.” (Harvard Business Review, 2021)
Ignorar esse valor é um desperdício de capital humano que impacta negativamente os resultados das empresas e o clima organizacional.
A falsa dicotomia entre juventude e inovação
Outro mito recorrente é o de que apenas os jovens dominam a inovação. No entanto, um estudo da Harvard Business School revelou que startups fundadas por empreendedores com mais de 45 anos têm 36% mais chances de sucesso do que aquelas criadas por pessoas com menos de 30 anos. A razão? Maturidade para avaliar riscos, maior rede de relacionamentos e capacidade de execução mais refinada.
Além disso, em 2023, o Fórum Econômico Mundial alertou que a diversidade etária é essencial para a sustentabilidade organizacional. Um time intergeracional é mais completo porque une vigor e ousadia com estratégia e sabedoria.
Etarismo: um preconceito silencioso
O termo etarismo (do inglês ageism) foi cunhado por Robert Butler nos anos 1960, mas permanece extremamente atual. Trata-se da discriminação baseada na idade, que afeta especialmente profissionais maduros. No Brasil, uma pesquisa da consultoria Robert Half mostrou que 7 em cada 10 profissionais com mais de 40 anos já se sentiram discriminados em processos seletivos (2022).
Essa exclusão não é apenas injusta — é contraproducente. Empresas que promovem ambientes inclusivos colhem frutos em inovação, desempenho e retenção de talentos. Como destaca o relatório da McKinsey & Company (2023):
“Diversidade não é apenas uma questão moral, é uma vantagem competitiva real.”
O caminho é a valorização da competência, e não da idade
O debate não gira em torno de substituir jovens por maduros — mas sim de reconhecer que a idade não deve ser critério de exclusão, e sim de integração. A pluralidade de ideias, perspectivas e vivências é o que faz uma organização prosperar em ambientes complexos e desafiadores.
Concluo este post com as palavras de Simone de Beauvoir:
“Para que a velhice não seja uma irrisória paródia de nossa existência anterior, só há uma solução: continuar a perseguir fins que deem um sentido à nossa vida.”
Redigido e postado por Gutemberg B. de Macedo Presidente da Gutemberg Consultores


