Por Gutemberg B. de Macedo
Há aproximadamente 30 anos (1995), durante uma viagem de férias com a família aos Estados Unidos, comprei dois exemplares do livro If I Knew Then What I Know Now.
Um exemplar dei de presente ao meu filho primogênito, Patrick Henry, que à época tinha 19 anos e cursava Engenharia Mecânica na Poli, da Universidade de São Paulo.
O segundo exemplar li vorazmente e o guardo até hoje em minha biblioteca. Volta e meia o consulto, em busca de lições para a minha própria vida.
Ao escrever este post, lembrei-me do depoimento de Charles Schmvck, empresário e editor da Performing Arts Magazine. Em seu relato, ele afirmou:
“Vinte e cinco anos atrás, eu gostaria que alguém tivesse me contado que, apesar do trabalho ser muito importante, as coisas mais fundamentais são a família e os amigos. […] Um dia, perdi meu emprego de dezenove anos, sem razão alguma, exceto pelo desejo da empresa de cortar o orçamento. Então, eu concluo: encontre um tempo para sua família e seus amigos, para se exercitar, rir mais e conversar com pessoas de fora da empresa.”
Infelizmente, observo que muitos profissionais se esquecem, ao longo de suas carreiras, dessa lição valiosa — e chegam ao topo sozinhos. Alguns, infelizmente, destroem suas famílias no processo.
Acredito que nenhum trabalho, nenhuma posição, nenhum sucesso substitui a família.
Todas as manhãs, sou lembrado disso ao observar os pássaros. Após longas horas à procura de alimento, eles retornam aos seus ninhos — desfrutando o conforto de um lar aquecido, seguro, protegido do barulho e dos perigos do mundo exterior.
Todo profissional, independentemente da natureza de seu trabalho ou posição social, deve sentir essa mesma sensação de calor, afeto, acolhimento e segurança ao voltar para casa. Como escreveu o rabino Mendel:
“Seu lar e sua família são o seu ninho, o centro da sua vida, o eixo do qual se prolongam todas as experiências cotidianas. Seja quando somos crianças ou adultos, nosso lar e nossa família são onde devemos nos sentir mais confortáveis no mundo.”
Infelizmente, muitos de nós, totalmente dedicados ao trabalho, deixamos de apreciar a beleza de um lar sadio e generoso.
Reconheço que muitos homens e mulheres jamais conheceram um verdadeiro lar — tiveram apenas uma casa. Um ambiente onde não se sentiam valorizados ou queridos, muitas vezes relegados à companhia de babás, em vez da presença amorosa de seus pais.
É nossa responsabilidade construir um lar feliz, solidário e repleto de amor genuíno e incondicional.
“De que vale conquistar o mundo, se perdermos nossa alma no caminho?”
Essa pergunta, que ecoa como um alerta silencioso, talvez seja a mais urgente para homens e mulheres que percorrem os exigentes corredores da alta liderança.
A carreira executiva, com sua busca incessante por performance, inovação, resiliência e entrega, é frequentemente descrita como um caminho nobre — mas também solitário. E a família? Onde ela fica nesse trajeto?
É fácil olhar para o alto escalão e enxergar conquistas. Difícil é perceber o que foi deixado para trás:
- aniversários ausentes,
- promessas não cumpridas,
- filhos crescendo à margem da agenda,
- relacionamentos sustentados por mensagens rápidas e silêncios prolongados.
Vivemos na era da hiperconectividade, mas quantos executivos estão verdadeiramente conectados com suas casas? Com seus filhos? Com seus pais envelhecendo? Com o cônjuge que também tem sonhos?
A pergunta que não quer calar é:
Será que precisamos escolher entre excelência profissional e presença familiar?
A boa notícia é que o tempo está mudando. Hoje, mais do que nunca, as empresas procuram líderes inteiros — humanos, éticos, presentes. Não mais máquinas de resultado.
Há espaço para uma nova narrativa: a de que vulnerabilidade é maturidade. Que dar exemplo em casa é tão relevante quanto dar resultados na reunião de diretoria.
Quantos executivos ousam agendar reuniões com os filhos com a mesma prioridade com que agendam com o conselho?
Quantas líderes já perceberam que o tempo com os pais é tão estratégico quanto o lançamento de um novo produto?
A inteligência emocional, tão valorizada no ambiente corporativo, nasce dentro de casa. É ali que aprendemos a ouvir com empatia, liderar com cuidado, sustentar vínculos nos dias difíceis.
Hoje, os líderes são convidados a responder perguntas que seus antecessores talvez nunca tenham enfrentado:
- Como manter alta performance sem sacrificar os afetos?
- Como inspirar equipes se não lideramos com presença nossa própria família?
- Como falar sobre propósito se abrimos mão do nosso maior motivo?
Mais do que respostas prontas, precisamos de reflexão profunda:
Que legado queremos deixar? Apenas resultados? Ou também memórias, valores, vínculos e amor?
Este texto não traz fórmulas prontas. Mas convida a uma pausa.
Um café sem celular. Um jantar sem e-mails. Um abraço sem pressa. Um pedido de desculpas. Um “eu te amo” dito com verdade.
Porque a carreira executiva é, sim, uma missão nobre — mas ela não pode ser nossa única identidade.
Na sala de reuniões, somos cargos.
Em casa, somos insubstituíveis.
Talvez o verdadeiro sucesso esteja justamente aí: em conciliar alta performance com profundo pertencimento.
E você? Quando foi a última vez que se sentiu inteiro em ambos os mundos?
Gutemberg B. de Macedo Mentor de executivos, escritor e defensor de uma liderança equilibrada, humana e sustentável.



